Resenha “O Iluminado” (The Shining) – Stephen King

   Lembro-me como se fosse ontem, numa das minhas primeiras visitas à Biblioteca Municipal de minha antiga cidade como efetiva sócia (orgulhosa à beça, antes ia e ficava só namorando os livros em destaque), estava tão feliz que resolvi que chegava de olhar os livros só da frente, os expostos mais populares. Queria aventura de verdade, então fui logo caminhando pelo fundo à esquerda. Lá estava a verdadeira mina de ouro: terror e suspense. Fui direto na minha paixão de menina, Edgar Allan Poe. Porém, uma prateleira abaixo me chamou muito a atenção. Livros com capas de palhaços apavorantes, carros vermelhos, garotas tristes, esqueletos… vi que o autor de cada um deles era um tal de Stephen King. Não se enganem pensando que o nome me era estranho. Já conhecia o carinha, uma pessoa como eu, ávida por livros do gênero jamais ignoraria o nome e suas referências. O que acontece é que na biblioteca da minha escola não tinha nada dele, então ao ver uma prateleira cheia de suas obras meu rosto se abriu num imenso sorriso de satisfação. Isso foi um pouco antes de eu ingressar em romances mulherzinha, como os da Nora Roberts. Fiquei entre Carrie e O Iluminado. Acabei levando os dois (podia pegar dois livros e um kit de gibis por 10 dias). Aquele por a história me lembrar um pouquinho a da Jean Grey, minha X-Men favorita, e este por ter visto o filme e UAU, era de arrepiar. Talvez pela cara do Jack Nicholson já ser naturalmente assustadora, vai se saber…
    Tendo os lido nessa ordem, devo dizer que estava ansiosa por começar o segundo. O Iluminado foi ao mesmo tempo maravilhoso e revoltante, porque quando analisamos pelo prisma literário, o filme deixou muito a desejar. O livro era muito mais, é muito mais. O horror, o medo puro impresso naquelas 399 páginas jamais poderá ser reproduzido à altura.
   Título Original: The Shining
   Ano de Lançamento: 1977
   Número de Páginas: 399
   Grau de Pavor – Escala de 1 a 10: 9,85
   Diferentemente do que a maioria pensa antes de ler a obra do Tio King, não, o iluminado da história não é o Jack Torrance. Ele é apenas um escritor com certo potencial e chefe dessa família, que inclui sua esposa Winnyfred (Wendy) e seu filho de cinco anos Daniel (Dan ou Danny para os mais chegados), este sim sendo o personagem-título desse clássico. O garoto é muito inteligente para a idade que tem, às vezes sabendo até demais, como onde as coisas em casa estão quando ninguém as encontra, ou quando vai chover. Ele possui um amigo imaginário, Tony. Os Torrances estão passando por uma grave crise financeira e emocional, tendo Wendy quase pedido o divórcio por não suportar o marido bebendo como um gambá. Esse problema fez com que Jack perdesse o emprego e quebrado o braço de Danny quando este tinha apenas três anos. Até que o homem resolve se tornar abstêmio. Como isso não mudasse o fato de que passariam a ficar sem comer, Jack não pensa duas vezes quando um amigo lhe oferece a vaga de zelador do famoso Hotel Overlook. Muda-se com sua família para as montanhas e quando tudo parece finalmente entrar nos eixos as coisas começam a ficar estranhas… Danny constantemente tem pesadelos tenebrosos com o hotel, de dia vendo até imagens impressas nas alas de épocas atrás. Jack desenterra todo o passado do hotel, que é extremamente negro. O filho parece ter premonições vindas de Tony, envolvendo o hotel e sua família, mas não consegue entender… até que uma ida não autorizada ao apartamento 217 desencadeia o horror encerrado nas ricas paredes do Overlook…
   Uma das coisas a se observar na obra não é só a idéia central. King escreve muito sobre o relacionamento dos três, do quanto Wendy deixou de confiar no marido quando este agrediu o filho, e no quanto pai e filho são apegados um ao outro. Isso veio do próprio relacionamento entre King e seu filho Joe, a quem a obra é dedicada:
   “Este é para Joe Hill King, que ilumina.”
   O amor entre os dois por vezes faz Wendy sentir ciúmes, como se fosse uma estranha entre eles. Devo dizer que gostei à beça das cenas de amor entre Jack e Wendy, que foram tão bem escritas que me pergunto se não foram inspiradas em seu relacionamento com Tabitha. Não posso deixar de comentar o quanto um outro aspecto além do terror me chamou a atenção. O drama. Este não é apenas um livro para assustar e fazer gemer de medo, mas sim a vida de uma família, que mesmo com acontecimentos extraordinários é normal como qualquer outra, com seus problemas, suas alegrias. A superação diária do problema de alcolismo do marido e pai. Wendy em seu subconsciente teme que Jack agrida Danny novamente. Quantas vezes emocionei-me com o relacionamento de Danny e Jack, o garoto esperando ansiosamente pelo pai enquanto ouve seu radinho de pilha. Das tentativas deles fazerem bonecos quando começou a nevar, da estradinha que o pai fez para ele brincar com seus carrinhos. O amor com que Jack ensinava o filho a ler. Claro que Danny amava muito a mãe, mas como está escrito nas próprias páginas “O filho era a menina dos olhos de Jack”. Antes de ser uma história cruel sobre forças malignas, é sobre um amor incondicional. O quanto o Sr. Torrance lutou para não ser possuído pela criatura cruel daquele lugar, tudo pelo filho. Só passou a enfraquecer pelas desconfianças de Wendy e da impotência que sentia em relação aos acontecimentos ali presentes, pois sabia que o filho não estava mentindo. Jack então vive um grande conflito que é a) ceder à atração e influência do Overlook sobre ele, assim mudando da posição de zelador para gerente e de quebra escrevendo um livro sobre o lugar e b) deixar aquele maldito lugar, salvando a família e a si mesmo. Mas quando o hotel descobre a fraqueza de Jack e a bebida entra no jogo, consegue possuí-lo. Fiquei infinitamente triste, porque apesar de já ter visto o filme, minha esperança era de que isso não acontecesse. Descobrir que Tony na verdade era Dan um pouco mais crescido (seu nome do meio é Antony) foi uma surpresa muito legal.
   Enfim, esse foi meu segundo livro do Stephen King, e até hoje, tanto tempo depois de lê-lo sei que é e sempre será um dos mais assustadores e emocionantes romances já lidos por mim. E não são poucos, meu caro, pode acreditar.
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Sobre Bezerrinha

Leitora compulsiva, blogueira, cozinheira, ocasionalmente escritora e colunista literária de alguns sites. Prazer, Marcela. Para os mais chegados, Bezerrinha.

Publicado em 31 de janeiro de 2013, em Literatura Estrangeira, Livros, Resenhas, Resenhas Literárias e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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