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Resenha “O Meu Pé de Laranja Lima” – José Mauro de Vasconcellos

   “No Natal, às vezes nasce o Menino Diabo”. É assim que abre a primeira parte dessa obra comovente, escrita pelo aventureiro José Mauro de Vasconcellos. O que parecia ser a narrativa de mais uma de suas grandes aventuras acaba sendo as mais tristes memórias que alguém poderia ter de sua infância.

   Lançamento: 1968
  Autor: José Mauro de Vasconcellos
  Páginas: 192
  Editora: Melhoramentos

   José Mauro, mais conhecido como Zezé, é um garoto de seis anos incompletos que vive em Bangu-RJ. Possui muitos irmãos, e sua família está vivendo um momento de grande pobreza, devido à demissão de seu pai do emprego que sustentava a casa. Isso obriga sua mãe e irmãs mais velhas a trabalharem incansavelmente na fábrica da cidade. Nosso camarada é um garoto muito curioso, inteligente, sempre querendo descobrir coisas e mais coisas. Difere muito de seus irmãos, todos morenos e puxados do lado indígena de sua mãe. É louro e muito miudinho… mas não se engane, ele é o mais arteiro dos meninos de Bangu, sendo muitas vezes duramente castigado pelos pais e irmãos. Zezé sonha ser artista de cinema, e não perde um filme de faroeste.
   A situação financeira da família piora e se vêem obrigados a mudar-se para uma casa menor e mais econômica. É lá que Zezé conhece Minguinho, o pé de laranja lima mais simpático e divertido de todos os tempos. Os dois formam uma amizade forte e é nele que Zezé encontra alguém com quem possa falar de seus sonhos, desejos, medos. Sempre após uma surra, nosso amigo ia para o quintal conversar com o amigo.
   O que pode parecer apenas mais uma autobiografia de um escritor brasileiro notável, na verdade é a visão de um garotinho sobre a dureza que a vida é para alguns, e o quanto podemos aprender com isso. Nosso gato ruço, como é chamado por sua irmã, Glória – a favorita de Zezé, e loura como ele -, foi ensinado desde cedo que as coisas eram difíceis e era complicado mudar. Tendo tantos irmãos, às vezes mal tinham o que comer. Por Zezé ser muito arteiro, vivia levando surras memoráveis. O que era para ser algo disciplinar acaba transparecendo como maldade dos adultos, a própria família de Zezé. Com pai e mãe sempre ausentes, o garoto foi criado por Glória. Vê o espaço paterno ser preenchido pelo amigo Portuga, Manuel Valadares. Esse garotinho é tão sedento de ternura que agarra-se ao amigo de uma forma que faz o coração da gente doer e sorrir ao mesmo tempo. Zezé passa a tê-lo como sua única família, tendo chegado a pedir para que Portuga o adotasse como filhinho. O garoto encontra nele o bálsamo contra a ferida que carrega no peito, a crueldade, maldade de seus próprios parentes. A vida passa a ter cor para o garoto. Mas então as coisas mudam de uma maneira inesperada… terás que ler para saber.
   Esse foi um livro que marcou minha infância de uma forma que nenhum outro irá marcar. A gente sofre junto com Zezé, chega a sentir a dor das surras que ele leva. Uma das maiores lições de amor lidas nas páginas amareladas pelo tempo foi a preocupação do garoto de que seu irmãozinho, o Rei Luís, não ganhasse um presente de Natal. Mesmo não ganhando nada para si ele deu um jeitinho de presentear o irmãozinho que gostava tanto.
   Meu Pé de Laranja Lima foi adaptado para as telonas, em 1970, e para as telinhas, na TV Tupi em 1970, e para a Rede Bandeirantes nos anos 1980 e 1998. Foi publicado em 19 países e traduzido para 32 idiomas. Chegou a ser publicado na Coréia em 2003, em forma de quadrinhos, tendo obtido bastante sucesso. Foi o livro, de longe, mais famoso de nosso estimado José Mauro.
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